GEOGRAPHIA - Thomaz Pompeu

Nota.

Verifiquei e tenho a mais absoluta certeza que esta geographia é de Thomaz Pompeu e era antigamente adaptada nos lycêus.
Este exemplar pertenceu a meu avô José Maria de Souza Ribeiro, que escreveu de seu punho as paginas que no princípio faltavam.
Meu avô morreu em 1897 já muito velho (83 annos).

Ass.: Galdino M. Ribeiro

[N.T.:O livro não possui data, pois as páginas iniciais se perderam. No entanto, de acordo com as informações apresentadas, é bem possível que foi editado em por volta de 1870. Por exemplo: sobre as passagens de Vênus o livro diz que "as seguintes serão em 1874, e depois em 1882". As estatísticas de população do Brasil, províncias e países são por volta de 1867. O Paraguai ainda era governado por um "ditador" - Solano Lopez.]
 

Compendio Elementar de Geographia Geral e Especial do Brasil.

Primeira Parte

Principios Geraes

Capitulo 1º

Preliminares

Corpo - É tudo que reune as tres dimensões: comprimento, largura, grossura, ou profundidade; quando é redondo, chama-se bolla, globo, esphera ou espheroide.

Superficie - É o que termina o corpo, e só tem duas dimensões, a da largura e do comprimento.

Linha - É uma extensão sem largura, nem profundidade, cujas extremidades se chamão pontos; são limites das superficies: são rectas ou curvas ou quebradas.

Ponto - É o que termina a linha.

Duas linhas rectas podem ser parallelas, perpendiculares ou obliquas; uma linha recta pode ser horizontal ou vertical.

Linha recta - É a mais curta que se póde tirar entre dous pontos.

Linha curva - É a quem nem é recta, nem composta de rectas.

Linha pararellas [parallelas] - São as que, traçadas sobre o mesmo plano, não podem tocar-se, isto é, estão a igual distancia uma da outra por toda a sua extensão.

Linha perpendicular - É a que se encontra outra sem perder mais para um lado do que para o outro.

Linha obliqua - É a que encontra outra pendendo mais para um lado qua para outro.

Linha vertical - É toda a linha representada pela direcção de linha de prumo; e perpendiculoar ao plano horizontal.

Duas linhas que se encontrão formão o que se chama angulo. O ponto de encontro chama-severtice do angulo, e as linhas que o formão lados do angulo.

Como duas linhas podem encontrar-se de differentes maneiras, por isso os angulos devem variar.

Angulo recto - É o formado por uma linha recta que cahe perpendicularmente sobre outra.

Angulo agudo - É o mais pequeno que o recto.

Angulo obtuso - É o maior que o recto.

Circumferencia do circulo - É uma linha curva traçada sobre um plano o qual tem todos os seos pontos igualmente distantes de outro ponto interior chamado centro do circulo.

Circulo - É a parte da superficie plana limitada por essa curva.

Raio do circulo - É a linha que vai do centro à circumferencia ou metade do diametro.

Diametro - É a recta que passando pelo centro do circulo tem as suas duas extremidades na circumferencia; divide o circulo em duas partes iguaes chamadas semi-circulos.

Arco do circulo - É uma parte da circumferencia cortada por uma recta chamada corda.

Circulos parallelos - São circulos traçados sobre a esphera, que tem os seos centros sobre a mesma linha recta, que se chama eixo, e é perpendicular aos seus planos.

Plano do circulo - É a superficie plana sobre que se suppõe traçado o circulo.

Divisão do circulo (grande ou pequeno), faz-se em 360 gráos; cada gráo subdivide-se em 60 partes chamadas minutos, cada minuto em 60 segundos, cada segundo em 60 terceiros; marcão-se desta maneira: (º) gráo, (') minuto, (") segundo, por exemplo: 2º15'12"11"'.

Dous diametros que se cortão perpendicularmente formão quatro angulos rectos em um circulo e dividem a circumferencia em quatro partes iguaes de 90 gráos cada uma.

A abertura do espaço comprehendido entre dous lados de um angulo recto tem por consequancia 90 gráos.

Medida de um angulo - Se faz pelo numero de gráos que contem a porção da circumferencia comprehendida entre seos lados, quando o vertice do angulo está no centro da circumferencia.

Elipse - É uma curva em forma de oval; tem centro como circulo, mas diametros iguaes. O menor d'este diametro chama-se pequeno eixo, e é perpendicular ao maior que se chama grande eixo.

Sobre este grande eixo ha dous pontos igualmente distante do centro, que se chama fócos.

Esphera - É um corpo limitado por uma supeficie curva que tem todos os seos pontos equidistantes de um ponto interior chamado centro da esphera.

Espheroide - É um corpo mais ou menos semelhantes a uma esphera; mesmo que differe, em todos os pontos de sua circumferencia não estão igualmente distantes de seu centro. Uma espheroide pode ser alongada como um ovo, ou achatada como uma laranja.

Relação do diametro para a circumferencia.

Em todo circulo a circumferencia é igual a tres vezes a extensão do diametro, e um setimo do mesmo. Assim; se o diametro de um circulo tiver sete palmos, a sua circumferencia desdobrada terá 22 palmos.

Eixo - É a linha que se presume atravessar a esphera passando pelo seo centro até os polos, e sobre a qual gyra.

Polos - São as estremidades dessa linha.

Capitulo II.

Cosmographia e Definições Geraes.

Cosmographia (de cosmos mundo, e graphia descripção) é a discripção do universo.

Chama-se universo a totalidade dos corpos, que Deos creou; taes são os astros suspensos sobre nossas cabeças, a agua, a terra, o ar [etc]. Chama-se Céo (astronomicamente fallando) o immenso espaço em que vemos o sol, a lua, estrelas [etc].

Firmamento - A parte do Céo que de nós fica mais distante, em que os astros se nos figurão como pregados.

As sciencias que explicão os phenomenos, e as leis que regem os astros e a terra, são:

Astronomia - Que explica os movimentos, e as leis que regem os astros.

Geologia - Que em sua accepção mais extensa é discripção physica da terra e de todos os seus phenomenos, e principalmente de sua extructura interior.

Geographia - Que é a discripção da superficie da terra em suas diversas relações.

A terra póde ser considerada, ou como astro (planeta) em relação com os mais corpos celestes, ou como um corpo physico, e seres physicos, que a povoão: ou finalmente como um corpo politico ou moral em relação a sociedade civil, isto é, o genero humano.

Daqui vem dividir-se a Geographia em Mathematica, Physica e Politica.

Mathematica ou Astronomica - É a que ensina a descrever a terra emquanto sua figura, dimensões, posição ou systema do universo e movimentos.

Physica - A que ensina a descrever a superficie da terra emquanto solida, liquida, occupada por individuos dos tres reinos da natureza, e cercada do fluido atmospherico.

Politica - A que ensina a descrever os mais nobres habitantes da terra formando selvagens, barbaras ou civilisadas.

A geographia ainda póde ser considerada quanto ao tempo e objectos que descreve; e então chama-se:

Historica ou anterior - A que descreve a terra como se tem achada em differentes epocas anteriores aos nossos dias;

Actual - Quando se ocupa com a discripção da terra no estado actual.

Daqui vem as denominações de geographia antiga, moderna, sagrada, ecclesiastica [etc].

Quanto ao seo objecto ella se chama:

Geral - Quando descreve as cousas principaes da terra considerada em sua totalidade.

Cerographia - Quando descreve as cousas principaes de qualquer região.

Topographia - Quando desce a discripção de miudezas locaes.

Hydrographia - Quando discre[ve] os mares, ou a parte liquida de alguma região.

Orographia [-] quando descreve as motanhas e as serras de qualquer região.

Meteorologia - A parte da physica, que explica os phenomenos da atmosphera.

Ethnographia - A sciencia que tem por objecto a descripção, divisão e filiação dos povos; sua natureza caracteres physicos, costumes, usos, lingua e religião.

Capitulo III

Principios Geraes de Geographia Astronomica

Dos Astros em geral, sua divisão, extrellas fixas.

Astros - São aquelles corpos existentes no espaço e que se nos figurão como fixos na aboboda celeste.

Elles são fixos e luminosos, por si mesmos, ou errantes e opacos, brilhando com luz emprestada.

Fixos e luminosos - Por si mesmos são os que conservão a mesma posição no céo, e a mesma ordem entre si, e chamão-se estrellas fixas. Seo numero é infinito: para conhecê-los melhor as astronomos os tem dividido em grupos, que os antigos chamarão constellações, e os modernos cathalogos, isto é, reuniões de estrellas. São luminosos porque brilhão com luz própria; o que se conhece pela luz viva e sinctillante, que parece mudar de cor cada momento. (1)

As estrelas fixas são innumeraveis (), incommensuraveis (); calculão-se em milhões de vezes maiores que a terra, e milhões de leguas mais distantes que o sol. Sem telescopios contão-se umas quatro mil, porem com este instrumento vem-se innumeras.

Quanto á sua grandeza aparente, que resulta de seo brilho, dividem-se em estrella de uma ate dezeseis grandezas; sendo somente ate a setima visivel á olhos nús.

Telescopicas - Chamão-se aquellas estrelas, que por sua incommensuravel altitude só se percebem com este instrumento.

Estrellas varias - Chamão-se aquellas que desapparecem ou se ocultão por algum tempo e depois reapparecem. As desta especie chamão-se propriamente temporarias (4). E aquellas que experimentão variações periodicas na intensidade de luz, isto é, que parecem mudar de grandeza, e passar successivamente de seo maior brilho a um grão de diminuição tal, que as torna quasi imperceptiveis: estas chamão-se principalmente periodicas. (5)

Polar - Chama-se a estrella que esta mais proxima do pólo do norte, que parece fixa, ou servindo de pólo áo eixo do mundo, quando observada da linha equinoccial: e é a ultima da constelação denominada Ursa menor.

Estrellas Duplas, Triplices, e Multiplas - São chamadas os grupos de duas, tres ou de mais estrellas, que vista a olhos nús, parecem uma só estrella, e que se resolvem em grupos por meio de lunetas. Por exemplo, a polar é dupla, compõe-se de uma de 2ª grandeza, e outra de nona; e assim outras muitas.

Estrellas coloradas - Muitas estrelas duplas ou multiplas são coloradas; as vezes uma é verde, e outra azul, branca, encarnada [etc].

Nebulosas são manchas luminosas, que se percebem em diveras partes do céo, as quaes são algumas vezes formadas por pequenas estrellas muito juntas e outras vezes por uma materia cosmica com luz pallida (6).

Via Lactea - É uma zona, ou faxa esbranquiçada, que se percebe no céo, quando a noite está escura e serena, e que parece atravessar de um ponto a outro, composta de um aggregado de estrellas telescopicas, e nebulosas, que mal se podem distinguir (7).

Constellações ou Asterismos - São grupos em que os astronomos antogos distribuirão as estrellas, para melhor conta-las, dando-lhes nomes arbitrarios de heróes, animaes, instrumentos, [etc]. Hoje chamão-se catalagos [catalogos].

Antigamente conhecião-se só 48 constellações; 12 zodiacaes, 21 boreaes e 15 meridionaes; hoje contão-se 128. Destas são mais notaveis as zodiacaes chamadas signos, que se comprehendem nos 12 espaços iguaes, de 30 gráos cada um, de que consta o zodiaco.

Sol - É uma estrella fixa, muito mais visivel da terra do que as outras, e daqui parece muito maior. É um corpo espherico, luminoso, collocado no centro do nosso systema planetario: é para nós a fonte de luz, e do calor. Tem um movimento de rotação, que se excuta [esecuta ou executa] em 25 dias e meio. É 1,300,000 vezes maior que a terra, e dista da terra, termo medio, 27 milhões de leguas.

Tem manchas, que se percebem com qualquer instrumento. Sua luz procede de uma nuvem, ou atmosphera luminosa, que cerca-o. (8)

Capitulo IV

Dos astros errantes

Planetas e Cometas

Astros errantes, e opacos - São aquelles que mudão de lugar em relação as estrellas, ao sol, e o que ora se approximão, ora se affastão para maior distancia.

Chamão-se opacos, porque brilhão com luz alheia.

Reconhece-se pela luz súa (?) tranquilla, e uniforme, e que não muda de cor.

São de tres classes.

Planetas (que quer dizer errante) aquelles que gyrão em torno do sol em perido [periodo] certo e determinado, como a nossa terra.

Satellites 0 Aqueles que gyrão em torno dos planetas, como a lua em torno da terra.

Cometas - Chamão-se certor [certos] corpos de classe especial que, ou não pertencem ao nosso systema solar, ou descrevem em roda do sol elipses extremamente alongadas, com derecção e movimentos muito irregulares: Chamão-se de cauda quando são acompanhados de uma faxa luminosa; de barba quando essa facha [ou faxa, faixa] as precede, de cabelleira quando os circula à maneira de uma aureola.

Ha ainda outros corpos celestes, que tomão outros nomes, taes são:

Aerolithos, ou pedras meteoriticas, que são corpusculos compostos de diversos mineraes, opacos, que se presumem gyrar em torno do sol em forma de uma grande faxa, cuja orbita corta a da terra, donde se desprendem as vezes aslguns e cahem sobre a terra em chuva de pedras, ou formando um globo de fogo, e dando um grande estampido: quando esse meteoro é acompanhado de um corpo solido e cahe chama-se aerolitho ou bolido, quando passa simplesmente roçando a atmosphera como um foquete, sem queda, nem detonação, chama-se estrella cadente (9).

Luz zodiacal - É uma grande faxa luminosa de materia cosmica, que circula o sol, e as vezes se torna vizivel em algum ponto da terra, do lado do occidente logo depois do sol posto, com uma luz esbranquiçada e tranquilla de forma lenticular. (10).

Numero dos planetas - Os antigos só contavam sete planetas, entrando o sol e a lua neste numero; hoje contão-se 8 grandes e 87 pequenos ou asteroides (11). Dos grandes 4 são interiores, isto é, gyrão entre os asteroides, e o sol; e 4 exteriores, que gyrão alem da orbita dos asteroides.

Sua distancia ao sol, volume e movimento ve-se da seguinte tabella:
 
Nome dos Planetas (13) Diametro, sendo o da terra por unidades Volume sendo o da terra por unidade Distancia ao sol, sendo a distancia da terra (12) Rotação dos planetas sobre si mesmos

h. m.

Duração da revolução sideral

dias

Inclinação sobre a eccliptica
Mercurio

Venus

Terra

Marte

Asteroides (14)

Jupiter

Saturno

Uranus

Neptuno

0,391

0,985

1,

0,519
 
 

11,225

9,022

4,334

4,719

0,060

0,975

1,

0,14
 
 

1414,2

734,8

82

110,6

0,387

0,723

1

1,523
 
 

5,202

9,538

13,182 [13,192]

30,04

24 05

23 21

23 56

24 37
 
 

09 55

10 30

87,96

221,7

265,25 [365,35]

686,97
 
 

4332,58

10759,21

30686,82

60127,0

7º 0' 5"

3º23'39"

0º 0' 0"

1º51' 6"
 
 

1º18'52"

1º29'36"

0º46'28"

1º46'59"

Inferiores. - Chamão tambem os planetas, que se achão mais proximos do sol, como Mercurio, e Venus, e os outros superiores.

Movimento dos planetas.- Todos tem dous movimentos proprios, um de rotação sobre seu eixo, que executa em algumas horas, e outro de translação em torno do centro commum, o sol, em certo numero de mezes ou annos; ambos esses movimentos são do occidente para o oriente.

ORBITA.- É o caminho que o planeta, ou qualquer outro astro, descreve em torno do seu centro; tem a figura de uma elipse, occupando o sol um dos seus fócos.

PERIHELIO.- Se diz quando o planeta se acha mais proximo do sol; e Aphelio uando mais distante (15).

VELOCIDADE DOS PLANETAS.- Quando mais vizinhos ao sol, mais rapidos andão os planetas, e por conseguinte mais curtas são suas revoluções. Assim, Mercurio, o mais vizinho, percorre 650 leguas por minuto, a Terra 412, e Uranus 93 sómente. A orbita de Mercurio é percorrida em 4 mezes, a da Terra em um anno, a de Uranus em 84, e a de Neptuno em 160 (16).

DENSIDADE.- Descobrio-se que a densidade dos planetas está na razão inversa de sua distancia ao sol. Suppondo-se os planetas homogeneos, e comparando-os á substancias conhecidas, póde-se considerar Mercurio como composto de mercurio liquido: Venus de ferro sulfurado, da mesma materia a Terra; Marte e a Lua de marmore; Jupiter e Uranus de resina, e Saturno de pinho.

MERCURIO.- É o mais vizinho do sol, e o menor dos principaes; está quasi sempre engolfado nos raios do sol, e por isso pouco visivel a olhos nús; no seu movimento de rotação é tão rapido, que corre perto de 32 mil leguas por hora.

Em suas distancias médias, este planeta acha-se tres vezes mais proximo do sol, que a Terra; por conseguinte recebe nove vezes mais calor e luz do que nós.

VENUS.- É o planeta que mais se assemelha á Terra por suas dimensões, e tempo de suas revoluções. Com o telescopio descobrem-se montanhas, e uma atmosphera semelhante á nossa; tem phases, como a lua.

Venus é geralmente conhecida pela alvura de sua luz, e belleza se seu esplendor. Algumas vezes percebe-se de dia a olhos nús: brilha tanto como vinte estrellas de primeira grandeza.

Como Mercurio, acompanha o sol, ora segue, ora o precede; por isso vê-se á tarde pelo lado do poente, e outras vezes pela manhã para o nascente. Dão-lhe por isso o nome de estrella da tarde, ou vesper, estrella d'alva, da manhã, ou lucifer (portador de luz) (17).

MARTE.- Dos planetas superiores é o mais vizinho da terra, o raio de sua orbita é quasi um meio da terra (18), que elle envolve, e percorre em perto de 2 annos, e volta seobre si mesmo no espaço de um dia: tambem tem phases.

Seu diametro excede a metade do da terra, e seu volume é quasi um quinto do do nosso globo. É facilmente conhecido á vista núa pela sua luz vermelha, côr de sangue (o que lhe deu o nome mythologico) phenomeno attribuido a uma atmosphera espessa e nebulosa.

ASTHEROIDES (19).- Os pequenos astros chamados tambem planetas telescopios descrevem suas orbitas entre Marte e Jupiter com pouca differença de tempo, percebem-se com telescopios, e apresentão-se sob a apparencia de uma estrella de oitava a decima grandeza, cujo diametro parece ser de 80 a 90 leguas.

JUPITER.- É o maior dos planetas conhecidos; excede o volume da terra 1470 vezes, e o seu diametro é 11 1/2 o da terra. Apresenta-se como uma estrella de 1ª grandeza, cujo esplendor excede algumas vezes ao de Venus.

Sua revolução é muito lenta, leva quasi 12 annos em completa-la; mas sua rotação se faz em pouco mais de 9 horas.

O raio de sua orbita, ou sua distancia média ao sol, é de 7 vezes a da terra, ou 190 milhões de leguas. Tem 4 satellites, ou luas, que girão em torno delle no periodo de dia e meio até 17 o mais distante (20).

SATURNO.- Este planeta, afastado do sol mais de nove vezes de distancia da terra, é todo visto a olhos nús, com uma luz baça, como uma estrella de segunda grandeza.

Tem 8 satellites, e é coroado de um duplo annel largo e chato. O seu diametro é nove vezes e meia maior que o da terra, e por conseguinte seu volume 888 vezes maior que o do nosso globo. Leva 29 annos em sua revolução.

URANUS OU HERSCHELL.- Distante do sol 660 milhões de leguas, ou dezenove vezes o raio da ecliptica, só é visto com telescopios: opéra sua revolução em 84 annos. Não se sabe se tem movimento de rotação. Seu diametro é quatro vezes e meia o da terra, e seu volume 77 vezes (21). Tem 6 satellites.

NEPTUNO OU LEVERRIER.- É o ultimo planeta grande conhecido, e nos limites do systema planetario. Dista do sol 30 raios da ecliptica, ou mil milhões de leguas; percebe-se com telescopios sob a fórma de uma estrella de 8ª grandeza (22).

Presume-se que gastará 166 annos em sua revolução. Tem-se descoberto 2 satellites.

COMETAS.- São pequenos corpos opacos, ou Planetas especiaes, que sem pertencerem ao nosso systema solar, vem atravessa-lo de tempos a tempos, e alguns têm findado por sujeitar-se á suas leis, e a circular em torno do sol, quasi como os mais planetas. Suas orbitas são muito excentricas e alongadas, de sorte que por via de regra, só os podemos vêr na parte de seu curso mais proximo ao sol.

Os astronomos distinguem tres predicados, que os caracterisão, bem que nem todos os tenhão, e são: nucleo, que é o ponto central, nebulosidade ou cabelleira, que circunda o nucleo, cuja materia é tão diaphana, que através delle se percebem as estrellas, a cauda ou facha luminosa, que os acompanha quasi sempre na parte opposta ao sol (23).

Tem-se observado cometas de nucleo transparente, e outros que não têm nucleo. Elles apresentão ordinariamente mui pequeno volume; alguns não tem cauda, e movem-se em diversas direcções.

Alguns cortão a orbita da terra, que se chamão interiores; outros vão além do mundo planetario (24).

Há 6 cometas periodicos, isto é, com revolução calculda, de sorte que se prediz seu apparecimento, como o de qualquer outro planeta (25); mas a sua natureza, cauda, luz, porque se modificão de tantas maneiras, são questões que ainda não forão resolvidas satisfactoriamente (26).

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(1) Fixas - As estrellas tem movimento apparente commum com todos os astros que parecem nascer, passar pelo meridiano e por-se no occidente. Este movimento que apresentão as estrellas e mais astros como fixos na aboboda, guardando sempre suas distancias e posições respectivas, é devido a rotação da terra, cujo movimento se effectua em sentido inverso, e é o que chama movimento diurno. Mas comquanto se diga que ellas são fixas em relação a outros astros (planetaes) que mudão de posição todos os dias, ultimamente tem-se descoberto que algumas tem-se deslocado, como por exemplo: Arcturos, que caminha para o sol; as duas da 61ª de Cysne, uma das da grande Ursa: a Sirio, a Lyra, e muitas outras mudão sensivelmente de posição. M. Argelander deu um catalago [catalogo] de 560 estrellas fixas com movimento proprio. D'aqui concluirão os astronomos que todas tem um movimento de rotação como o sol, e de translação em torno de um centro desconhecido, que por sua vez servem de centro a outros systemas planetarios.

Luminosos - Conhecem-se que brilhão com luz propria pelas scintillação, que é o movimento de agitação que se observa na luz das estrelas, o que uns attribuem o effeito da atmosphera, e outros ao movimento de rotação sobre seu eixo, e Young ao phenomeno das interferencias luminosas.

Os planetas não scintillão sensivelmente porque o disco destes astros sendo muito maior que os apresentados pelas estrelas, formão um aggregado de pontos, cada um dos quaes scintilla isoladamente; e por conseguinte as imagens diversamente coloridas, justapondo-se umas sobre as outras formão sempre a imagem branca. Demais, as estrellas submettidas ao telescopio não cessão de apparecer como pontos brilhantes, entretanto que os planetas aumentão a sua grandeza segundo a força do instrumento.

(2) O astronomo Herschel calcula ter visto com o auxilio do telescopio, n'um espaço de 8º de comprimento e 3º de largura, 44,000 estrellas, o que suppõe 75 milhões no céo inteiro.

(3º) As estrellas parecem muito menores que o sol porque se achào muito mais distantes. Uma das que se presume mais approximada da terra é a 61ª do Cysne; segundo os calculos de Bessel e Arago, ella excede á 600 mil vezes as distancia que nos separa do sol! Porem as observações feitas o grande heliometro de Fraunhofer em 1838 derão pare [para] essa distancia 502,200 vezes.

A luz percorre 46,712 leguas de 3,000 braças por segundo e gasta 8m16s para chegar do sol à terra. Por tanto, a luz da estrella mais visinha da terragastaria uns 10 annos para chegar até nós. Não é absurdo suppor que ha estrellas cem vezes mais afastadas, e que por conseguinte sua luz levaria mil annos em chegar à terra. Diz Huygenes que uma bala de artilharia, correndo 8 milhas por minuto, não empregaria menos de 700,000 annos da estrella mais proxima à terra.

(4) Examinando-se os catalagos antigos, achão-se nelles descriptas muitas estrellas hoje invisiveis. Nota-se isso principalmente na constellação denominada Pleiada ou Sete-Estrello, da qual se não se não distinguem presentemente com a vista mais que seis estrellas. Já Ovidio havia isto observado quando diz: Quod septem dici, sex tamen esse solet.

(5) Tem-se procurado explicar este phenomeno por diversas cousas. uns dizem que é a interposição de algum corpo opaco que rouba a luz da estrella; outros presumem grandes manchas na superficie das estrelas; outros que ellas são sujeitas a revoluções periodicas; que ora se afastão e ora se aproximão mais da terra.

(6) Na via lactea contão-se muitas nebulosas, ou antes, ella mesma é uma grande nebulosa que parece pertencer o nosso systema planetario. Dividem-se em tres classes a nebulosas: 1ª aquelas que resultam de uma multidão de pequenas estrellas muito juntas, que, a olhos nús, parecem uma mancha esbranquiçada; 2ª as estrelas resoluveis, em que se presumem compstas tambem de estrelas, e que com telescopios mais fortes se poderião distinguir; 3ª as nebulosas propriamente ditas, que se presumem irresoluveis como a que fica debaixo do cinto de Orion.

Estas ultimas ainda se subdividem, segundo a sua grandeza e explendor, em nebulosas estelares, nebulosas planetarias, e estrellas nebulosas.

Esta ultima classe de nebulosas irresoluveis presume-se ser compsta de materia cosmica, isto é, um vapor luminoso.

(7) Herschel que esta sinta é devida a luz confuza de um numero infinito de pequenas estrellas muito proximas uma das outras, e de materias nebulosas, que é impossivel distinguir sem auxilio de bons telescopios. Os astronomos gregos derão-lhe o nome de galaxia (caminho de leite) e o nosso vulgo chama - Carreiro de Santiago - por acreditar que por elle subia ao céo aquelle apostolo, Esta é uma grande nebulosa, a que pertence o sol com todo o cortejo de seo[s] planetas.

(8) Segundo Herschel e outros astronomos modernos, o nucleo do sol é opaco, talvez habitavel como a terra, procedendo a luz e o calor de uma atmosphera luminosa que o rodeia chamada photosphera. Suppõe-se que as manchas ou sombras que se vêm no disco do sol procedem de aberturas de uma atmosphera incendiada que deixão ver o nucleo opaco.

(9) Estes corpusculos não são pequenos planetas que se chamão asteroides; mas talvez da mesma materia, pois são compostos de pedra, ferro em estado metalico, nikel e outros metaes; são de todas as dimensões, desde o tamanho da arêa fina ao da grande pedra que cahio em um districto da China que tinha 80 braças em sua maior largura. Há exemplo de pessoas mortas pela queda dessas pedras.

A pedra maior que fallão os antigos que cahio do céo foi a de Egos Patamos, na thracia: modernamente, uma que cahio em Ardeche, em França, em 1821, a 15 de junho. Sua quéda foi acompanhada de uma detonação que durou 20 minutos, e achou-se enterrada 5 pés abaixo do solo, pesando 184 arrateis. Em 1835 cahio uma no sertão do Assú (Rio Grande do Norte) cujus fragmentos espalhados em uma grande extensão pesavão muitas libras. O barão de Humboldt fez menção deste meteoro no Cosmos.

Estrellas cadentes. O padre Secchi, director do observatorio astronomico de Roma, tendo-se dado a observação espicial [especial] das cadentes, e tendo-as mandado observar simultaneamente em Civita-Vecchia, correspondendo-se os dous observatorios por meio do telegrapho electrico, chegou a estas conclusões:

1ª. As estrellas cadentes são asteroides ou pequenos planetas;

2ª. A sua morada no céo é uma faxa annular em redor do sol, que atravessa a orbita da terra entre as constelações de Cepheo e da Cassiopea.

3ª. Entre os dias 9 e 11 de Agosto acha-se neste ponto de intercecção. D'aqui vem que estes são os dias em que se observão maior numero destas estrellas.

4ª. Ellas não são luminosas por si mesmas, mas entrando na atmosphera terrestre, são illuminadas pela luz crepuscular do nosso planeta.

5ª. A altura media destas estrellas é de 23 leguas, bem que algumas tenhão sido apercebidas ate o dobro desta altura.

6ª. A luz crepuscular da nossa atmosphera calculada em ocasiões dos eclipses do sol totaes por Langier e por Liais, é sensivel até a altura de 75 leguas.

7ª. Estes asteroides não são igualmente distribuidos nesta faxa annular, e nem a terra corta sempre o disco annullar (que gyra) no mesmo ponto. D'aqui vem que entre os dias 9 e 11 de Agosto sua queda horaria tem variado, segundo os annos, entre 39 e 110.

8ª. O ar que se precipita no vacuo que deixão apos si produz aquele estampido que faz crer que ellas rebentão, quando tal não acontece.

9ª. Quando pela sua direcção cahem na terra, sendo sua velocidade de 8 leguas por minuto, provocão huma resistencia de 20 atmospheras e desenvolve-se um calor tal, que nào sómente as inflamma, mas infunde-lhes a superficie.

10[ª]. O seo abrazamento é superficial e momentaneo, vindo ellas de ambito muito frio, que é de 100º abaixo de zero.

"Quando estas estrellas cadentes cahem no nosso planeta tomão tomão o nome de aerolithos de de bolides." Já antes do pader Secchi tinha escrito Humboldt.

"Tudo persuade que as estrellas cadentes, os bolides, aerolithos ou pedras meteoricas são pequenos corpos que se movem em torno do sol descrevendo secções conicas e obedecendo, como os planetas, as leis geraes da gravitação. Quando estes corpos encontrão a terra tornão-se luminosos nos limites da nossa atmosphera; muitas vezes então elles dividem-se em fragmentos cobertos de uma materia escura e luzida."

(10) A existencia, materia e origem da luz zodiacal tem suscitado muita duvida entre os astronomos. Sobre a sua existencia não se questiona mais hoje; quanto, porem, a sua existencia materia ou naturera [natureza], não concordão os sabios os sabios.

Resto da grande nebulosa condensada e transformada nos corpos do systema solar, dicer disserão Laplace e outros: Meyran entendeo que ella é um manto ou anvolucro que circunda o sol e se estende alem das orbitas de Mercurio, Venus, e que talvez penetra a da terra. Hoje a maior parte dos astronomos opinão pela idea de um involucro ou annel lenticular formado de asteroides (areas, pedras e ferro de todas as dimensões que gyrão em torno do sol, por que explica tambem a origem dos aerolithos, bolidos, estrellas cadentes. "Nestado imperfeito em que se achão nossos conhecimentos, diz Humboldt, a opinião mais satisfactoria deve ser a que se abana (?) com os nomes de Laplace, Arago e Biot; segundo aquelle, a luz zodiacal irradia de um annel nebuloso e achatado que circula no espaço comprehendido entre as orbitas de Venus e Marte". (Cosmos, T.1º)

(11) Ate o principio deste seculo conhecião-se somente os sete grandes planetas; depois discobrirão-se (descobrirão-se) os quatro pequenos - Ceres, Pallas, Vesta e Juno. Em 1846 o astronomo Leverrier descobrio o grande e mais afastado planeta Neptuno.

De 1846 para ca quasi todos os annos se decobrem alguns dessa mirida [miriada] de asteroides que gyrão entre as orbitas de Marte de Jupiter, e alguns suppõe que são fragmentos de um grande corpo celeste que por qualquer revolução physica se fraturasse em muitos corpusculos e d'ahi talvez venhão tambem os aerolithos, se a hypothese da fracturação é verdadeira.

(12) A distancia medida da terra ao sol é de vinte e sete milhões de leguas.

(13) Estes planetas erão conhecidos de toda a antiguidade, excepto Uranus, descoberto em mil setecentos e oitenta e um por Herschel, e Neptuno, em mil oitocentos e quarenta e seis, por Leverrier.

(14) Os Asteroides, cuja orbita fica entre as de Marte e Jupiter, en numero de oitenta e sete, são os seguintes: Ceres, Pallas, Juno, Vesta, Astrea, Hebe, Iris, Flora, Metis, Hygia, Partenope, Victoria, Egiria, Irene, Eunomia, Phy Psyche, Thetis, Melpomene, Fortuna, Massalia, Lutecia, Calliope, Thalia, Themis, Phocia, Proserpina, Euterpe, Bellona, Amphitrite, Urania, Euphrosina, Circe, Leukothea, Atlante, Pomona, Poliypimia, Daphne, [fim da seção manuscrita. Segue parte original impressa]... ne, Fortuna, Massalia, Lutecia, Calliope, Thalia, Themis, Phocia, Proserpina, Euterpe, Bellona, Amphitrite, Urania, Euphrosinia, Circe, Leukothea, Atlante, Pomona, Polypimia, Fides, Leda, Laeticia, Harmonia, Daphne, Isis, Ariadne, Nyse, Eugenia, Hestia, Aglaja, Doridia, Palés, Virginia, Nemausa, Europa, Calypso, Alexandra, Pandora, Melete, Mneumosyne, Concordia, Elpis, Danae, Echo, Erato, Ansonia, Angelina, Cybele, Maja, Atia, Leto, Heperia, Panopea, Niobe, Feronia, Clytia, Galathea, Euridice, Freia, Friga, Diana, Eurinome, Sapho, Terpsichore, Alkemene, Beatriz, Clio, Jo, Semede, Sylvia (87).

(15) Os antigos astronomos substituirão perigêo ou apogêo porque suppunhão a terra no centro do nosso systema planetario; assim dizião que um planeta estava mais proximo á terra, se se achava no seu perigêo, e mais distante, quando no apogêo.

Hoje applicão-se estas denominações á lua com relação á terra.

(16) Kepler, nascido em Wiel em 1571, teve a gloria de descobrir as leis dos movimentos dos corpos celestes, depois confirmadas por Newton e por todos os astronomos. Elle achou que:

1º Os planetas percorrem elipses, de que o sol occupa o fóco commum.

2º Os raios vectores descrevem áreas proporcionadas aos tempos empregados em descrevê-las.

3º Os quadrados dos tempos das revoluções são entre si como os cubos dos grandes eixos das orbitas.

(17) Este planeta apparece durante 40 semanas pela manhã e 40 outras semanas pela tarde, conforme as estações. Elle só se afasta do sol 24 milhões de leguas, ou (?) milhões da terra, quando passa entre nós e o sol. É dessa grande differença das distancias que vem tambem a grande differença da luz de Venus em suas diversas phases. Quando pára entre o sol e a terra, approxima-se ás vezes da linha dos nós, e então projecta sua sombra sobre o disco do sol, um dos phenomenos mais raros e importantes na astronomia. Essas passagens de Venus são rarissimas: depois de succederem duas no intervallo de oito annos, só reapparecem depois de um seculo, para succeder outra d'ahi a oito annos.

As duas ultimas forão em 1761 e 1769, observadas pelos astronomos nas ilhas do Pacifico, na Laponia, etc. As seguintes serão em 1874, e depois em 1882.

(18) Quando este astro se acha em opposição, isto é, do nosso lado de sua orbita, torna-se muito brilhante: em 1719 tornou-se tão notavel, que houve um levantamento do povo na Allemanha, com medo do phenomeno.

(19) O celebre astronomo Kepler tinha notado uma lacuna entre as orbitas de Marte e Jupiter; suppunha que ahi devia existir um astro ainda desconhecido. Em 1800, seis astronomos distinctos, na Allemanha, resolverão formar uma associação de 24 observadores, para verificar a hypothese de Kepler.

Desde 1801 que começarão a descobrir-se esses pequenos planetas no espaço indicado, e Oblers [Olbers] inferio que esses corpusculos devião ser fragmentos de algum grande corpo, que se tivesse fracturado em muitas partes.

(20) Os eclipses dos satellites de Jupiter, muito frequentes, porque elles passào sempre pela sombra do planeta central, são de grande utilidade e usao pratico pelos maritimos para o calculo das longitudes.

(21) É tal a sua distancia do sol, que a luz, que nos chega em 1/8 de hora do sol, gasta duas horas e tres quartos para chegar em Uranus. Sua intensidade e calor devem ser quatrocentas vezes menor que a que produz em nós.

(22) A descoberta deste planeta reputa-se ema das mais bellas conquistas do seculo em astronomia. Mr. Leverrier e o astronomo Adams de Cambridge demonstrárão ao mesmo tempo, por calculos mathematicos, a existencia e o lugar que devia occupar este astro, sem verem-n'o e sem se entenderem os dous astronomos, quando Mr. Galle, no observatorio de Berlim, guiado pela demonstração de Leverrier, descobrio o planeta.

A luz do sol, para chegar a elle, leva quatro horas, e sua intensidade e calor deve ser novecentas vezes menor que o que sentimos. A temperatura média deve ser de 60 gráos abaixo de zero.

São portanto, 21 os satellites conhecidos: 1 da Terra, 4 de Jupiter, 8 de Saturno, 6 de Uranus e 2 de Neptuno.

(23) Tem-se visto destes astros com varias caudas: o de 1744 tinha seis, o de 1823 duas, uma para o sol e outra para o lado opposto. Elles soffrem continuas e ás vezes rapidas mudanças nas caudas. O de 1618 tinha uma cauda de 104 gráos. Os de 1680 e 1811 tinhão caudas, diz Humboldt, cujo comprimento era igual ou maior que uma linha da terra ao sol. Accrescenta que as emanações dessas caudas têm algumas vezes se misturado com as atmosphera da terra. O de 1861 tinha uma cauda de mais de 90 gráos; e, segundo Mr. Liais, astronomo francez, devia ter envolvida a terra em fins de Junho. O de 1769 tinha uma cauda de 97 gráos.

(24) O cometa de Biella, cuja revolução em torno do sol se effectuou em 6 annos e tres quartos, corta a orbita da terra.

Quando, em 29 de Outubro de 1832, se effectuou essa passagem, foi objecto de um panico geral, porque se dizia que encontraria a terra; mas a terra estava então á distancia tal deste ponto de sua orbita, que lhe seria preciso um mez para alli chegar.

Na opinião de Humboldt, o encontro possivel de um cometa com a terra podia causar umas catastrophe geral, se todavia se póde empregar tal expressão, fallando de um phenomeno inaudito na historia cujas consequencias escapão a toda apreciação. Não há, pois, impossibilidade absoluta do encontro de um cometa com a terra, mas, segundo Arago, que submetteu ao calculo os casos possiveis deste phenomeno, póde acontecer um em cada 281 milhões de vezes contra um, que elle se nào encontrará com o nosso globo. Portanto, o receio que essa hypothese veio substituir a dos antigos, que vião nos cometas signaes ominosos as cólera celeste, não é menos ridiculo.

Os gazes das caudas dos cometas parece que se têm encontrado com a nossa atmosphera, ou pelo menos a têm envolvido, como em 1861, segundo Mr. Liais, sem todavia causar a menor alteração.

(25) Os seis cometas periodicos são:

O de Halley, de 75 annos.

O de Encke, de 1204 dias, ou 3,30 anos.

O de Biella, de 6 annos e tres quartos, ou 2417 dias.

O de Faije, de 7 annos, ou 2718 dias.

O de Vico, de 5 annos e meio, ou 1996 dias.

O de Brorsen, de 5 annos, ou 2038 dias.

(26) Alguns dos grandes cometas completão sua revolução em muitos annos; o bello cometa de 1811, segundo os calculos de Argelander, leva tres mil annos.

O cometa que aterrou a Europa em 1680 excede a 280 annos, segundo Encke.

Estes astros, diz Humboldt, se afastão do sol a distancia de 21, e outros 24 raios da orbita de Uranos, isto é, a 6200 e 13000 milhões de miriametros.

Alguns cometas têm sido vistos de dia com luz tão brilhante, que o sol não offusca; taes forão os de 1402, e modernamente o famoso de 1843, que foi visto em toda parte, ás 3 horas da tarde, a 28 de Fevereiro.

Os cometas, cujas orbitas tem sido calculadas ate hoje, chegão a 150, e daquelles cuja apparição e curso, através das constellações, se achão verificadas por documentos, chegão a 600 ou a 700.

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